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Perspectiva de preparação do futuro e investimento inteligente

Segunda-feira, 15.01.18

 

 

Vivemos numa época de transição, e isto também se aplica ao sistema político. Com as actuais tecnologias científicas já não se justifica tantos obstáculos à optimização dos recursos colectivos. E neste momento o sistema político é mais obstáculo do que facilitador.

Os cidadãos não estarão disponíveis para continuar a pedalar em seco para alimentar um Estado lento, pesado e burocrático e uma subserviência a Bruxelas.

Continuarmos a ver o futuro ensombrado pela incapacidade de previsão dos actuais protagonistas políticos não é muito inspirador. Assim como a cultura que representam.

Vê-los juntos ou em alternância, também não me parece entusiasmante. Ambos partilham a prioridade "agradar a Bruxelas", ambos gostam de controlar tudo, ambos agirão com pouca transparência, a teimosia é um traço comum assim como a arrogância, um não é responsável pelas falhas o outro nunca perde eleições (= como um ex-PM que nunca se enganava).

 

A única área que correrá melhor é a ordem pública, a segurança, a prevenção. Para não continuar a revelar fragilidades, o governo estará mais atento e alerta. Dificilmente continuaremos a ouvir uma ministra da Justiça afirmar que a PJ identificou mais perfis de incendiários do que o número de incendiários presos, por exemplo. E na prevenção rodoviária, os pontos serão para valer e haverá cassação de cartas.

O apoio às vítimas, os prejuízos, a reconstrução, será outra prioridade. 

Também o SNS será uma área acarinhada a partir de agora. 

Quanto ao desperdício de dinheiro e de recursos no sistema bancário, essa é uma incógnita. No entanto, o fisco estará muito afinado, resta saber se apenas para os que não lhe podem escapar por não terem dimensão e advogados fiscais. E os recibos verdes continuarão a ver-se aflitos para perceber o "complex" em que os meteram. 

O que fica para trás, como sempre, pela cultura de "bloco central"? Exactamente. A educação, os professores, as escolas, as universidades.

 

E se isto for mesmo assim, não estaremos assim tão mal, pois não? 

Estaremos mesmo mal, é o que ouvimos recentemente a Vitor Bento, que nos devíamos estar a preparar para os desafios futuros, para não ficarmos completamente dependentes de fora, sem produzir. O mesmo não será dizer que é tempo da Economia, e não apenas das Finanças?

 

E nessa perspectiva de preparação do futuro, não são a saúde e a educação áreas fundamentais?

Nessa perspectiva de preparação do futuro, em vez de obrigar os contribuintes a enfiar dinheiro no sistema financeiro que não os reconhece como accionistas, um sistema que irá sofrer grandes abalos e mudanças, porque não incentivar o investimento em empresas produtivas, que os reconheceriam como accionistas?

Os montantes absurdos que este governo já enfiou nos bancos falidos deve ser exigido pelos contribuintes em investimento inteligente, a trazer retorno para a próxima geração, pelo menos.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:44

Incêndios florestais: a versão oficial do governo encobre um crime impossível de esconder

Quinta-feira, 24.08.17

 

 

O impensável aconteceu este ano. Em nº de incêndios e em extensão de área ardida, conseguiu ultrapassar 2003. O norte e o interior do país vive uma situação que se assemelha a "estado de sítio" e/ou "estado de emergência".

Vemos alguns presidentes de câmara e presidentes de Junta de Freguesia a acompanhar, desesperados, situações absolutamente dantescas. O presidente da câmara do Fundão chegou a verbalizar, ao ver o nº de frentes num incêndio que destruiu a Gardunha, tratar-se de "terrorismo". Agora vê, incrédulo, o fogo a progredir pelo Pinhal Interior.

Terrorismo. Não foi o único a dizê-lo. De facto, é perfeitamente adequado dizê-lo: o crime dos incêndios configura gravidade equivalente ao terrorismo. Na sua voracidade criminosa, nem a tragédia os trava.

E qual é a versão oficial do governo? Precisamente: "negligência". Isto é: morreram pessoas, pessoas ficaram sem casa, sem os animais, as hortas, as àrvores de fruto, os pinhais. A resposta é: "actos de negligência".

De qualquer modo, os cidadãos já perceberam que lhes estão a mentir.

 

Um governo que consegue deixar os seus cidadãos indefesos, vulneráveis, entregues à sua capacidade de sobrevivência, não nos serve. Devia ter vergonha de vir enumerar os "bons resultados" em cima de cinzas  fumegantes. 

A ministra da Adminisstração Interna devia ter vergonha de vir à televisão titubear disparates, sobretudo quando interrompeu o programa "Negócios da Semana" da Sic Notícias sobre "A Economia do Fogo".

A representante pela comunicação da Protecção Civil devia ter vergonha de vir enumerar as "ocorrências" e descrever as "condições atmosféricas". Vemos o contraste da sua verborreia inútil nas imagens de pessoas a defender sozinhas as suas casas, em aldeias rodeadas pelo fogo. 

A Polícia Judiciária devia ter vergonha de só apresentar resultados em nº de detenções de indivíduos  suspeitos, em vez de controlar os referenciados e prevenir o crime organizado. Se a prevenção de riscos de segurança para as populações não cabe à polícia especializada, a quem cabe?

Os media deviam ter vergonha de repetir acriticamente a versão oficial. Há excepções, no entanto, de jornalistas que fazem as perguntas certas.

 

Neste país não se avaliam governos, ministros, deputados, nem políticos em geral. Neste país ninguém é responsável por nada. Neste país não nos dizem a verdade.

E ainda temos o azar de ter um dilema: a alternativa PSD/CDS é pior. Daí a nossa necessidade de criar novas plataformas políticas.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:23

A percepção da realidade de uma consciência abrangente

Quinta-feira, 09.05.13

 

Uma capacidade humana é a de aprender, abrir os horizontes, mudar a sua percepção da realidade, isto se estiver receptiva e curiosa em relação a tudo o que a rodeia, às pessoas concretas, às comunidades, à forma como se organizam.

Sempre me interessei pela análise da cultura de base de indivíduos e grupos, de empresas, de partidos políticos, de governos, das lideranças de grandes organizações (como a UE, por exemplo).

A minha análise está mais virada para a influência da cultura de base na intervenção política ou na intervenção financeira, pois tem um peso determinante na vida das pessoas.

 

Mantenho actuais algumas das minhas análises: a guerra do Iraque, por exemplo, que considerei uma invasão sem qualquer justificação possível. Participei em 2003 na manifestação em Lisboa. Antes dessa, só tinha participado na vigília por Timor. Depois dessa, só numa mini-manifestação (por falta de comparência de muitos) pela liberdade de expressão.

 

 

Análise da cultura de base do anterior governo PS:

 

Embora hoje já tenha mais elementos de comparação entre a gestão do anterior governo com a do actual, ainda mantenho o essencial da análise da cultura de base do anterior governo: cultura corporativa (grandes grupos económicos e financeiros, a banca, os grandes negócios). O seu estilo era, no entanto, modernaço: o deslumbramento pueril de um modernismo dispendioso, a desorçamentação, as PPPs, as fundações, os institutos, os estudos disto e daquilo, o TGV e o novo aeroporto, a ausência de supervisão bancária com o resultado desastroso.

Verificou-se a prioridade da imagem sobre a realidade concreta, a sociedade-espectáculo em powerpoint, o perfil do urbano moderno, rico e famoso como o exemplo de sucesso a seguir, a promoção de uma vida saudável e acéptica, as causas fracturantes, a aceleração do abandono do interior do país só lá colocando as hélices de uma energia verde para contribuinte pagar, o desprezo pela agricultura e pescas, pela terra como fonte de autonomia alimentar.

Verificou-se o aumento da diferença entre ricos e pobres, o aumento do desemprego e da emigração, números que nunca foram devidamente contabilizados. Foi também o início da desintegração social, a perseguição da ASAE aos feirantes e pequenos negócios de rua, preferindo ver essas pessoas a viver na dependência de subsídios, o polémico RSI. Quanto à grande evasão fiscal, pouco ou nada.

Em todo o caso, o estado social, ou seja, os serviços públicos prestados aos cidadãos foram preservados dentro de alguma qualidade e segurança. Digamos que havia um limite que nem o anterior governo, já com a corda ao pescoço, teve a lata de pisar: o limite das regras básicas de uma constituição democrática. Apesar dos tiques de um certo autoritatismo e a tendência para controlar a informação, procurava-se pelo menos a eficiência dos serviços públicos, não a sua destruição e alienação como vemos agora acontecer.

Se esse caminho também iria ser percorrido se o PEC 4 tivesse passado? Não sei. É certo que já se falava na desvalorização do trabalho, Manuel Pinho foi vender essa ideia à China, António Borges penso que já andava a fazer a sua acção de evangelização, mas teriam ido tão longe como este governo?

 

 

Cultura de base do CDS:

 

Aqui confesso que a minha análise da cultura de base do CDS, que pensava democrata cristã, estava completamente errada. Aqui não tenho atenuantes, pois os sinais estavam todos lá, a sua marca registada de cultura corporativa de estilo profundamente elitista, de sentimento de pertença às classes privilegiadas, tal como no Estado Novo. Há ali um saudosismo desse respeitinho quando falam de uma tradição caduca e ultrapassada.

Um dos sinais a que não dei o devido valor, mas já estava tudo lá, foi a sua perseguição ao RSI no período do anterior governo, quando se deu início à tal desintegração social através da perseguição da ASAE aos feirantes e pequenos negócios de rua de que falei lá atrás, que acabou por colocar essas pessoas a viver na dependência de subsídios. Foi nesse processo do RSI que eu vi a face mais mesquinha e moralista da cultura corporativa: primeiro os modernaços do PS retiram-lhes a sua forma natural de vida, de uma economia paralela de subsistência, para os colocar na subsidiodependência e, com isso, retirar-lhes a dignidade e autonomia (vítima uma vez), para depois serem culpabilizados por políticos moralistas do CDS como não querendo trabalhar e preferindo viver à custa do contribuinte (dupla vítima).

Podiam ter começado, pelo menos, por exigir com o mesmo entusiasmo a fiscalização da grande evasão fiscal, pois é essa que vale não sei quantos mil milhões.

Mas honra lhes seja feita, falaram na agricultura (que agora esqueceram) e na ausência de supervisão bancária.

 

Esta minha súbita lucidez tem um sabor amargo: o meu equívoco levou-me a apostar num Momento e a contribuir, embora à minha pequena escala, para a emergência de uma cultura que não se fica por não ter assimilado e interiorizado as regras da democracia, mas por ser mesmo anti-democrática.

Afinal Este é o Momento em que acreditei (valha-me Deus!), era o momento da compensação desejada, não no sentido de vingança propriamente dita, mas de uma certo ajuste de contas com a história. Ao lado de Durão Barroso e de Santana Lopes isso não foi visível porque havia Bagão Félix como mentor e símbolo moral da cultura verdadeiramente democrata-cristã. Mas agora não há Bagão Félix no governo e Passos Coelho está longe de ser um Durão Barroso e não tem a natureza empática e tolerante, próprias de uma cultura democrática, de Santana Lopes. Assim, os CDS, em roda-livre, revelaram a sua verdadeira natureza.

E ainda conseguiram ultrapassar um limite moral que nunca julguei possível: desprezar os mais fracos (reformados) colocando-os no joguete político para tentar salvar o seu peso eleitoral. Os reformados não precisam nem de paternalismo nem de caridadezinha, precisam de respeito, tal como qualquer cidadão. Mas isso eles não conseguem entender ou aceitar. Para isso, era preciso interiorizar a cultura democrática e estão muito longe de o conseguir.

 

 

Cultura de base do PSD:

 

Também aqui me enganei: embora não me tenha apanhado de surpresa na cultura corporativa de base, o PSD conseguiu ultrapassar todas as minhas expectativas. A sua cultura de base não é apenas corporativa semelhante à do anterior governo (grandes grupos económicos e financeiros, a banca, os grandes negócios). É que o anterior governo, apesar de bom aluno de Bruxelas, queria pelo menos andar para a frente, para um futuro cibernético, de uma economia virtual, de energia verde, da internet, da investigação, da educação de sucesso para todos, das novas oportunidades, puxar pelo país, de um país práfrentex, do simplex (algumas destas iniciativas até tinham algum mérito, nem que fosse só nas suas boas intenções).

 

Onde o PSD me surpreendeu é que, em vez de se virar para o futuro se tenha virado para o passado, para um tempo semelhante ao do Estado Novo, e de não ser apenas um bom aluno de Bruxelas, é um clone dos tecnocratas de Bruxelas, um robô-tecnocrata de Bruxelas. Na verdade, a troika nem precisava de se dar ao trabalho de cá vir, devem ter de se vir mostrar nos corredores do poder só para assustar os portugueses e convencê-los que eles são a troika. A troika já cá estava antes da troika descer do avião

Claro que também me conseguiu surpreender e apanhar de surpresa quando, em vez de cortar nos mais fortes, começou logo a cortar nos mais fracos e remediados. Assim como o facto de reduzir a sua intervenção ao ministério das finanças e a cortes disto e daquilo, parecia o Eduardo Mãos de Tesoura.

Não sabia que gerir um país era colar-se às exigências dos credores, ficar do lado dos credores, associar-se aos credores, contra os seus conterrêneos, chegando ao cúmulo de se identificarem culturalmente (nos preconceitos norte-sul da Europa) e moralmente (culpando as pessoas da má gestão política e financeira) com os nossos credores, para assustar e manter em suspense os seus conterrâneos.

O resultado é a liquidação dos serviços públicos (talvez um sonho antigo, estilo Margaret Thatcher), depois de terem destruído a economia nacional (micro, pequenas e médias empresas).

 

 

Gerir um país é isso? Cortar aqui e ali? 

Pensava que gerir um país era dar o exemplo, nisso até Salazar era melhor. 

Pensava que gerir um país, era contar a verdade às pessoas, a dimensão da dívida, a origem da dívida, a natureza da dívida. E isto por montantes exactos.

Depois, informar as pessoas sobre as exigências dos credores e explicar as suas razões.

A seguir, informar sobre o que iriam fazer para minimizar os danos na economia e na vida das pessoas e das famílias, como iriam tentar negociar na Europa melhores condições para o seu país e os seus conterrâneos.

 

 

 

Esta é a minha análise, ainda por verificar e validar, relativamente ao governo:

 

O que os cidadãos vêem como insucesso, este governo vê como sucesso: é o desemprego e a emigração que permitem a desvalorização do trabalho, pois o investimento privado que querem atrair baseia-se em mão de obra barata e trabalho precário.

Esse é o modelo de país que serve os grandes grupos económicos e financeiros que por cá passarão enquanto for rentável para depois irem sugar outros países e outros recursos.

 

Este é também o modelo de Europa que os tecnocratas desenharam, com diferenças norte-sul, países de 1ª e de 2ª. Para conseguirem o controle absoluto (onde cabe aqui a democracia e os cidadãos?) têm de conseguir o controle fiscal (!) e político (!!) dos países da eurozona.

 

 

 

E ainda falta a análise da cultura de base do PCP, do BE e dos Verdes:

 

Esta análise é a mais difícil, em parte porque ainda não fizeram parte de nenhuma equipa governativa, a não ser o PCP no verão quente e com Vasco Gonçalves.

Já tinha lido alguns livros na Primavera marcelista para saber que a organização colectivista, aplicada a uma comunidade e a uma cultura, nega a própria natureza humana: a diversidade desejável, a criatividade, a rebeldia, a vitalidade.

Posso é já adiantar, mas está por testar, que a expressão eleitoral estável do PCP se explica não apenas pela cultura corporativa do PSD, PS e CDS, mas também pela forma como gerem o poder, cada um ao seu estilo: tecnocrata autoritário europeísta do PSD; gestão pública danosa do PS; e o elitismo tradicional moralista do CDS.

 

Talvez também por estas razões o BE chegou a ter uma expressão eleitoral significativa e actualmente volta a estar a subir na simpatia dos potenciais eleitores.

Do BE recordo o papel importante de Miguel Portas, não apenas como eurodeputado, mas como homem do mundo, da nossa universalidade, qualidade tão portuguesa e talvez inigualável. Os seus documentários eram verdadeiras aulas de história das culturas.

Francisco Louçã está a revelar-se melhor comentador-professor-escritor do que deputado. E a entusiasmada Catarina Martins, agora mais calma, tem revelado empenho e entusiasmo nas suas intervenções. 

Quanto à sua cultura de base, consigo para já identificar a rebeldia, o seu protesto contra uma tendência corporativa mundial dominada pela finança.  Essa tendência hoje é visível. Só recentemente compreendi a razão dos seus protestos nas reuniões do G8 e do G20, que antecederam as transferências de capital da economia e dos contribuintes para os grandes bancos, que por sua vez antecederam as actuais reuniões e intervenções das troikas e dos tecnocratas de Bruxelas. Também só recentemente compreendi o movimento Occupy Wall Street. Enquanto esta perigosa concentração de poder das corporações e da finança se mantiver a nível europeu, reflectindo-se nos países do sul e do leste, o BE terá expressão eleitoral, independentemente da sua ideologia política estar ou não datada.

 

Os Verdes são os Verdes, iguais a si próprios desde que ouço Heloísa Apolónia nalgumas das suas intervenções. Certeira no diagnóstico, estilo provocador, actualmente mais conciliatória talvez por perceber que a nossa situação é mesmo de emergência.

 

 

Digamos que actualmente quem diagnostica melhor a realidade pode não estar ainda preparado para propor o melhor caminho, mas a percepção da realidade já é um passo.

A sociedade civil está muito mais atenta, também é nela que vemos a vitalidade e criatividade da mudança cultural para uma democracia de qualidade, uma sociedade inteligente, aberta, criativa, tolerante, inclusiva.

E os jovens são os que estão melhor posicionados para dinamizar os movimentos cívicos: por uma economia da colaboração, liberta de constrangimentos, nas áreas que nos permitem autonomia alimentar, industrial, energética, tecnológica, da investigação científica. E por uma sociedade em que todos tenham acesso à saúde de qualidade e à educação de qualidade. 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:28

A responsabilidade da possibilidade de um "novo rumo" para o país

Segunda-feira, 29.04.13

 

Gostaria de analisar alguns acontecimentos nacionais recentes em termos políticos (as decisões, a intervenção, o poder), económicos (a vitalidade, a substância, a base) e sociais (os grupos, as comunidades, os cidadãos).

 

Com0 vimos, as comemorações do 25 de Abril revelaram algumas fragilidades do sistema e uma nova fronteira cultural: os que estão do lado da lógica da austeridade (do lado financeiro, do lado dos mais fortes, cultura corporativa) e os que estão do lado da negociação (do lado da economia, do lado dos mais fracos, cultura da colaboração).

Esta fronteira não se pode definir apenas por partidos de direita ou de esquerda, essa já é uma divisão artificial, é essencialmente uma questão cultural mais profunda, tem a ver com a acção de cada um. É pela acção (o que faz, o seu exemplo) que cada um reflecte os seus valores e princípios.  

Na cultura corporativa (linguagem do poder), por exemplo, não temos apenas os que defendem os seus privilégios e excepções, temos igualmente os que acreditam que só alguns podem ter acesso à qualidade de vida e querem pertencer a esse grupo (conformismo).

Na cultura da colaboração, do mesmo modo, podemos vir a encontrar pessoas em lugares de responsabilidade que perceberam que só com a mobilização de muitos, cada um no seu papel, com o seu talento e criatividade, temos a possibilidade da animação da economia (a vitalidade de um país), a redução da dívida pública e a autonomia.

 

 

E agora o congresso do PS, que me surpreendeu pelo profissionalismo:

 

Gosto de ver um trabalho bem feito, do rigor, da dedicação. E foi o que vi neste congresso do PS. Um espaço simples e arejado, com as cores certas, a música de fundo certa, as bandeiras do país em vez das bandeiras partidárias. A expressão "um novo rumo" sintetiza todo um projecto. Outra expressão "as pessoas primeiro". Vemos já aqui, antes mesmo dos oradores subirem ao palco, uma mensagem clara: trata-se do país, das pessoas concretas. Este congresso é para o país e para as pessoas.

 

- Os apoios internacionais são fundamentais para se validar um projecto, para ser percebido como viável, para ser apresentado como uma nova  onda europeia. Isso foi conseguido.

- A afirmação de uma equipa coesa ficou, para já, conseguida. Mas esta é, como veremos, uma das condições mais delicadas. É assim que se garante a coerência e a consistência de um projecto. 

- Uma mensagem política implica autenticidade (verdade) e responsabilidade (realidade). Os dois discursos do secretário-geral, baseados na observação da realidade, nos resultados da lógica da austeridade, e propondo iniciativas viáveis, foram adequados. E sobretudo o tom de entusiasmo, afectivo, da abrangência e da tolerância. Passou a mensagem de estar atento, de acolhimento e de um caminho possível se todos quiserem: "um novo rumo" e "as pessoas primeiro".

- "Inteligência" foi uma palavra utilizada e muito bem aplicada. Raramente os políticos a utilizam para fundamentar as suas decisões, assim como a humildade de avaliar os resultados de algumas decisões e mudar.

- A insistência na economia e no trabalho, "as pessoas primeiro", a vitalidade de um país e a sua viabilidade. O valor do trabalho na prioridade emprego, emprego, emprego. As empresas como os motores da economia, as áreas produtivas.

- A coesão territorial também muito importante. A proximidade dos serviços aos cidadãos.

- Salvar o núcleo do Estado Social: a saúde e a educação. Não destruir o que de melhor se construiu. Melhorar a sua eficiência.

- A abertura à colaboração de todos os enquadramentos políticos, de todos os grupos da concertação social, de todas as associações e movimentos (a tal colaboração políticos - sociedade civil). E sim, concordo que essa abertura se mantenha mesmo que venham a conseguir uma maioria absoluta. 

- Outro aspecto fundamental para credibilizar os políticos e a representação política partidária: os políticos como exemplo cívico, de uma democracia de qualidade.

- Também o respeito institucional, o respeito pelos órgãos de soberania, mesmo que se discorde das suas decsões.

Estava lá tudo, sem dúvida.

 

 

Em relação à coesão interna:  esta é a parte mais delicada como disse atrás, e a mais importante, porque é a base da possibilidade da concretização de todo o projecto que já se pôs em movimento. A equipa une-se desta vez à volta de um desafio para o país, de um projecto maior do que qualquer grupo partidário, e já não (como antes) à volta de um líder político, de uma personalidade (culto da figura do herói, como o ex-PM). Alguns egos políticos parecem ainda não ter interiorizado a cultura da colaboração que se quer iniciar. A tentação de emergirem de novo, de insistirem nos velhos hábitos (agressividade de discurso contra o governo ou o PR, afirmação competitiva face a outros partidos), pode estragar a mensagem que se quer transmitir para mobilizar todos e cada um, e acabar por boicotar esse projecto.

 

 

Espero que esta equipa tenha bem consciente a responsabilidade de ter criado a expectativa da possibilidade de "um novo rumo" para o país, nas pessoas que têm sido massacradas com mais cortes previstos e que têm vivido estes dois últimos anos a angústia de serem os próximos a ficar sem trabalho.

Esta responsabilidade é enorme, exige o envolvimento de toda a equipa e dos que se juntarem a essa onda, diariamente.

Já vimos como muitos projectos promissores terminam por nos decepcionar devido à cultura de base dos seus elementos e à atracção de oportunismos vários, sempre que surge a vitalidade de um trabalho bem feito e da dedicação de alguns.

 

Desejar-lhes boa sorte é tudo o que posso dizer. Apreciei o seu trabalho, conseguiram surpreender-me e isso não é fácil: já cá ando há muito tempo a observar e a registar, e sinceramente, apenas fui permeável às mensagens políticas de Sá Carneiro e, muitos anos mais tarde, dos Estados Gerais de Guterres, da política de verdade de Manuela Ferreira Leite e, mais recentemente, de Este é o momento de Paulo Portas. Já vimos que todos eles duraram muito pouco, engolidos por outras agendas políticas dominantes.

Hoje só um projecto abrangente que mobilize a sociedade civil pode lidar com os desafios que a actual lógica dominante na Europa e no mundo financeiro nos quer impor.

 

 

Quanto à variável Europa, inserida nos discursos e que não depende de nós (embora uma onda de vários países já possa contar), considero fundamental - e já que o Presidente resolveu falar do pós-troika - que, além de se fazer a ginástica possível com os constrangimentos da dívida e da moeda única, se comece a preparar uma possível saída do euro. As duas hipóteses estão já a 50-50.

 

Falar de federalismo europeu é necessário para não assustar alguns cá dentro e lá fora, mas... cá para nós (e poucos Viajantes passam neste cantinho), isso já não é possível.

Depois dos cidadãos europeus, sobretudo os do sul e do sudeste, terem percebido o que os gestores do poder político e financeiro e alguns cidadãos de países do norte estão dispostos a fazê-los penar (sem casa, ausência de cuidados de saúde, sem acesso à educação, fome), acham mesmo que embarcam nessa armadilha? Acham mesmo que depois desta violência, porque há muitas formas de violência, os cidadãos embarcam em mais um projecto maníaco e perverso como esse?

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:12

Aproximação partidos políticos - sociedade civil: alguns equívocos culturais

Sexta-feira, 26.04.13

 

O dia de ontem ainda nos traria mais uma surpresa e igualmente no programa Política Mesmo da tvi 24: uma entrevista de Paulo de Magalhães a uma das figuras conhecidas na segunda fase do anterior governo PS: João Tiago Silveira. Lembram-se dele? Um rosto redondo de menino de coro que ficava sempre a sorrir por detrás dos protagonistas? Aquele que serviu de nova imagem do anterior governo PS e que vinha apresentar as novas medidas? 

Pois bem, parece que o entrevistado entregou uma carta ao Presidente do partido, juntamente com um grupo de outros militantes, com uma proposta de aproximação do partido à sociedade civil, para fazer pontes e abrir o partido à participação e colaboração dos cidadãos-eleitores.

Parece que esta proposta ainda não foi aceite para apresentar neste Congresso e compreende-se porquê:

 

Esta não é uma proposta credível de abertura à participação e colaboração da sociedade civil, porque se preocupa essencialmente com a abertura à participação dos cidadãos em eleições de candidatos à liderança do partido, assim como à possibilidade de votar em propostas e de apresentar petições em congressos.

Surge-nos assim de novo a marca registada do marketing político do anterior governo PS, o tal das propostas fracturantes (o entrevistado vai desfiando o seu rosário), a marca de uma cultura populista, que vive à volta da figura do líder, da imagem, da fama, do herói.

Esta marca registada revela-se própria de uma sociedade de espectáculo, da trash culture, do circo político: telemóveis em riste, marque o nº 70721 se quer o candidato A, marque o nº 70722 se quer o candidato B, tal como os Ídolos.

Esta proposta é muito à frente no séc. XXI, muitos filmes de ficção científica já anteciparam este circo global, a confusão geral onde ninguém se responsabiliza por nada nem ninguém pode ser responsabilizado. É eleito o mais popular, mesmo que pelas piores razões.

Onde está o espaço da reflexão?, da avaliação do perfil dos candidatos?, dos valores defendidos pelo partido?, do compromisso?, da verdade?, da qualidade e viabilidade das propostas?

 

O entrevistado só acertou na constatação da realidade actual: há realmente um fosso crescente entre os políticos e o eleitorado, entre o sistema partidário e a sociedade civil. Só que se esqueceu de dizer que a responsabilidade desse afastamento é dos partidos políticos, da sua actuação, do comportamento dos seus responsáveis e restantes elementos, da degradação a que chegaram, ética, moral e cívica, da governação política incompetente e da gestão ruinosa.

De facto, vemos a decadência dos partidos, como estão descredibilizados, desactualizados e obsoletos.

A frescura, a vitalidade e a criatividade estão do lado da sociedade civil.

 

Mas voltemos à proposta:

Se o entrevistado lesse uns livros de história política ficaria esclarecido e veria que essa aproximação à sociedade civil depende do partido arrumar a casa primeiro, como passo a explicar:

Partido = partido, subdividido em subgrupos, incoerências internas, indefinição do projecto, competição pelos lugares;

Arrumar a casa =  debater e reflectir, avaliar os erros cometidos, assumir as suas responsabilidades, mudar de estratégia. (Arrumar a casa não é varrer para debaixo do tapete como foi feito naqueles 4 meses providenciais entre o abandono de Guterres e o catapultar do ex-PM-actual-comentador-político.)

 

Mas o que é que os cidadãos vêem acontecer? Passar uma esponja sobre o passado e virar todas as munições contra os adversários, os outros partidos e as instituições do sistema.

 

 

Uma aproximação partidos políticos - sociedade civil implica uma alteração cultural profunda dos políticos, do seu comportamento, da lei eleitoral, da representatividade dos deputados na AR, da responsabilização dos gestores políticos por erros cometidos (competência), pela gestão danosa de dinheiros públicos (justiça). A confiança depende da verdade, da informação correcta e actualizada, da participação cívica diária.

 

Portanto, antes de se abrir à participação e colaboração da sociedade civil, o partido A ou B deve primeiro definir-se:

- a sua identidade, a sua cultura, os seus valores e princípios, o seu centro, a sua bússula, o que permanece intacto apesar das mudanças conjunturais;

- essa identidade (o essencial) deve ser coerente e consistente, e percebida, aceite e interiorizada pelos gestores políticos e pelas suas bases;

- essa identidade (o essencial) é a carta de apresentação à sociedade civil, no logotipo, no site, no discurso e na intervenção pública;

- o comportamento dos seus elementos deve respeitar essa identidade essencial (coerência e consistência) e ser um exemplo cívico (credibilidade).

 

A seguir vem o projecto conjuntural, a estratégia, que deve ser adequada à realidade, além de inteligente, viável e criativa.

A estratégia deve considerar prioridades bem definidas e o teste prévio da eficácia da intervenção proposta (o que implica ter bases de sustentação, apoios internacionais, fazer o trabalho de casa).

Na interacção com os outros partidos e com todos os responsáveis políticos, sociais, financeiros e económicos, deve revelar abertura e receptividade à negociação sempre que existir uma proposta concreta. E fazer a promoção das suas propostas, com entusiasmo e convicção, resistindo a opiniões e comentários críticos e/ou provocadores. O que interessa são as propostas, viabilizá-las. É isso que ficará registado na história, os resultados, o que funciona.

 

Ganhar a confiança dos cidadãos é um processo que exige muito trabalho diário e muita paciência, ir juntando pontos de credibilização até começar a ser percebido pela sociedade civil como grupo e como equipa consistente e credível.

Estes pontos ou créditos de confiança implicam uma informação correcta da realidade (verdade) e um comportamento coerente e consequente (o exemplo cívico).

 

Como vimos, são os partidos que terão primeiro de fazer o trabalho de casa. Quando forem percebidos como credíveis, a aproximação da sociedade civil, a participação cívica e a colaboração cívica, far-se-á naturalmente.

 

Hoje, com a comunicação facilitada e quase universalizada, os cidadãos já podem dar ideias e propor mudanças nos sites dos diversos partidos. É só enviar um e-mail ou fazer um comentário. Mas terá de haver espaço para um debate sério, não para o ruído da confusão geral e populista.

 

 

 

Nota: Gostava de, um dia destes, analisar os movimentos cívicos e como se estão a tornar cada vez mais activos e eficazes. 

Alguns já tentaram constituir-se como partidos políticos, entrando no sistema partidário e eleitoral. Resultados? Vantagens?

Para já, enquanto se mantiverem os equívocos culturais actuais, a lei eleitoral, o nº excessivo de deputados, a sua distância relativamente a quem os elege (representatividade), vejo como pouco vantajosa essa formalização.

 

 

Nota de esclarecimento a 2 de Junho de 2014: Muita coisa se passou neste país neste último ano. A nossa democracia foi-se fragilizando com o governo-troika e, com a opção presidencial por um apoio incondicional ao governo-troika, hoje já não se pode falar de um equilíbrio de poderes porque está tudo desequilibrado, e sempre que o tribunal constitucional dá pareceres é logo chantageado, e isto em cima de cidadãos mssacrados com impostos e cortes, despedimentos, ausência de perspectivas futuras.

Já não se ouve falar de um provedor de justiça, a figura desapareceu?, nem da procuradoria-geral da República, nem propriamente de Justiça. Talvez por isso os rsultados das eleições europeias tenham vindo abanar o status quo, de tal modo que surgiram dois novos factos políticos: o MPT com Marinho Pinto capitalizou votos de descontentes e desanimados, e no PS deu-se a invasão socrática, apoiada pelos media e com a expectativa tácita dos que defendem um consenso nacional, um bloco central digamos, o balão de oxigénio do sistema.

É neste novo contexto da existência de um desequilíbrio de poderes e da tentativa do sistema se proteger de uma nova configuração da AR nas próximas legislativas, blindando-se num bloco central, que procurei analisar de novo a proposta de primárias abertas para escolher o candidato a líder do partido, apresentado por Tiago Silveira e que, neste post, considerei populista, a não ser que se procedesse a uma revisão da actual lei eleitoral. Pois bem, o assalto ao poder do Presidente da Câmara de Lisboa baseia-se na pretensão de conseguir mais votos para o PS do que os obtidos por Seguro nas eleições europeias. Não se trata de debater um projecto que faça frente ao novo rumo com o qual parecia estar de acordo, não, é apenas uma questão de popularidade. Sendo assim, a única forma de provar que sim, está melhor colocado para obter mais votos, é em primárias abertas.

Esta invasão socrática acabou por despertar de novo, numa parte do PS, esta aproximação aos cidadãos. É esta a parte positiva, a meu ver, a possibilidade de liderarem uma revisão eleitoral que torne a AR mais representativa. E a proposta foi mais longe: a redução a 180 deputados. Se esta linha regeneradora do PS for a vencedora nas primárias, o PS será o partido tradicional a revelar mais vitalidade e criatividade.

Claro que a democracia incomoda muita gente, a possibilidade inovadora dos cidadãos participarem na vida colectiva, isto é, uma democracia mais representativa e participativa é uma amaeaça para as elites no poder há décadas, o rotativismo garantido, o controle da máquina estatal e da administração pública, das empresas públicas e público-privadas, as fundações, as decisões opacas, a alienação de recursos estratégicos, as promessas à troika. Prevêem-se portanto muitas reacções, com o apoio dos media, sobretudo nos canais televisivos, onde estão os políticos comentadores estrategicamente colocados para a propaganda semanal.

Este episódio no PS exemplifica o estado actual da nossa democracia. Podemos mesmo dizer que se trata de uma autêntica "luta de classes", uma jornalista que entrevistou Seguro até insistia que do lado do seu adversário estavam muitos "notáveis" A resposta foi certeira: a democracia é fantástica, uma pessoa um voto.  

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:03

A criança faz uma birra, o adolescente bate com a porta, o adulto negoceia de forma responsável

Quarta-feira, 10.04.13

 

Os egos dos políticos interferem no seu comportamento e nas suas decisões, situando-se ao nível da maturidade do adolescente: querem agradar aos poderosos e detentores do poder financeiro, ao grupo de referência, ao grupo dos apoiantes, etc, etc. Vivem na azáfama de construir uma carreira política e para isso dependem de favores e de expectativas de um futuro numa qualquer empresa pública ou PPP ou câmara municipal ou fundação, etc. etc.

É por isso que são os actores ideiais do teatro político pois limitam-se a seguir um guião escrito previamente pelos interesses dos grupos financeiros e económicos, encenado diariamente nas televisões. Um adulto autónomo e responsável questionaria o guião, tentaria adaptá-lo às circunstncias actuais e ao benefício dos cidadãos como um todo, consideraria o grande plano.

 

Hipoteticamente, um político com a maturidade de um adulto portanto não dependente da aprovação social, seria capaz, além de se adaptar às circunstâncias da realidade, de se antecipar às situações evitando assim colocar o país em risco. 

 

Vejam 2 exemplos de incapacidade de negociar e de chegar a compromissos de forma responsável, tal como um adulto faria se estivesse no seu lugar:

- o discurso do PM em que responsabiliza o Tribunal Constitucional por um buraco orçamental (na verdade, aquele OE 2013 é apenas uma insistência na mesma tecla);

- a entrevista na Sic e o discurso do líder da oposição, em que iniciou uma birra infantil ao insistir em eleições antecipadas, quando não há condições para tal (na verdade, os contribuintes do público e do privado, os que ficaram sem emprego, os que tiveram de emigrar e os pensionistas não lhe perdoariam tal desvario, pois são eles que estão a pagar o preço das irresponsabilidades de governos socialistas e social-democratas).

 

 

Outro exemplo do ego próprio dos políticos é a reacção de amor-ódio que Margareth Thatcher despertou nos britânicos, dividindo o país ao meio na altura da sua saída de cena.

Como este texto de opinião refere, não é de bom tom (nem de humanidade mais elementar) tecer considerações negativas quando alguém parte mas, tal como os autores referem de forma muito perspicaz, a própria gostaria de saber que despertou emoções fortes nos seus conterrêneos, pois não há nada pior para um ego de um político do que ser ignorado ou esquecido.

E uma coisa é certa, como eles bem destacam, Margaret Thatcher mudou o Reino Unido muito mais do que se julga, em termos financeiros, económicos e sociais, desmantelando o sector público e mudando o centro da economia para a City of London, e influenciou muitas outras economias e equilíbrios entre economias.

E mais ainda, essa profunda transformação revelou-se irreversível, levando os autores a apelidá-la de rainha-mãe da austeridade. Destaco aqui alguns excertos:

 

(...)

Mrs. Thatcher transformed the character of British politics by heading a democratically elected Parliamentary government that permitted financial planners to carve up the public domain with popular consent. Like her actor contemporary Ronald Reagan, she narrated an appealing cover story that promised to help the economy recover. The reality, of course, was to raise Britain’s cost of living and doing business. But this zero-sum game turned the economy’s loss into a vast windfall for the Conservative Party’s constituency in Britain’s banking sector.

(...)

Attacking rent-seeking in government, she opened the floodgates to economic rent-seeking in its classical sense: land rent in real estate (with debt-inflated “capital” gains) to make British property so high-priced that employees who work in London must now live outside it, taking highly expensive privatized railroads to work. Privatization also created vast new opportunities for monopoly rent for privatized public utilities, along with predatory financial takings by increasingly predatory banking.

(...)

By time Mrs. Thatcher became Prime Minister in 1979, Britain had made over a century of enormous investment in public infrastructure. Financial managers eyed this commanding height as a set of potential monopolies to be turned into cash cows to enrich high finance. Mrs. Thatcher became the cheerleader for what became the greatest giveaway of the century as the City of London’s gain became the industrial economy’s loss. Britain’s lords of finance became the equivalent of America’s great railroad land barons of the 19th century, the ruling elite to preside over today’s descent into neoliberal austerity.

Her tenure as Prime Minister seemed to reprise Peter Seller’s role in Being There. She made good television precisely because her philosophy was stitched together in a sequence of sound bites that flattened complex social and economic relationships into a banal personal psychodrama. Mrs. Thatcher’s ability to sweep the broad financial and economic polarization and financial “free lunch” behind a curtain enabled her to distract attention from the consequences of what Harold Macmillan characterized as “selling off the family silver.” It was as if the economy was a middle-class grocer’s family trying to balance its checkbook along the lines of what its banker insisted were necessary in the face of wages being squeezed by rising prices for basic needs.

The ground for Mrs. Thatcher’s rule was prepared by the fact that England’s economy was as much a mess as the rest of the world by the time she took office. The 1979 Winter of Discontent saw a perfect storm unfold. Unable to restrain Arthur Scargill and other and other labor grandstanders, the British Labour Party felt little need to wait for Britain’s share of North Sea oil to come on stream. That windfall would subsidize a decade of dismantling what was left of British industry. Oil states do not need to be efficient. They do not need industry, or even employment.

(...)

The new twist was that the class war aimed at labor in its role of consumer and debtor, not as employee. England’s domestic industry took one beating after another as factories closed their doors throughout the country (with the most successful becoming gentrified real estate developments).

The Iron Lady was convinced she was rebuilding England’s economy, while in reality it was only getting richer from London’s outlaw banks.

Throughout the world, the damage wrought by this financialized economy has been immense. By “liberating” national money from the constraints of taxing authorities, the Middle East stopped much of its projects for industrial development. After 1990 the Soviet bloc was deindustrialized to become an oil, gas and mining economy. And for Britain, trillions of dollars in global tax revenues that could have been used for industrial and social development were routed though London, where the UK has lived off the fees from this free-for-all. So despite Mrs. Thatcher’s admiration for Milton Friedman, famous for claiming that There Is No Such Thing As A Free Lunch, she made Britain’s economy all about obtaining a free lunch – eaten by the world’s financial managers who flocked to its shores.

How much did Lady Thatcher come to understand about a financial sector of which she never deliberately favored? She never expressed regret about how her policies paved the way for New Labour to take the next giant step in empowering the City of London’s financial complex that has un-policed the banks to catalyze one financial crash after the next, hollowing out Britain’s economy in the process.

When Mrs. Thatcher took power, 1 in 7 of the England’s children lived in poverty. By the end of her reforms that number had risen to 1 in 3. She polarized the country in a ‘divide & conquer’ strategy that foreshadowed that of Ronald Reagan and more recent American politicians such as Wisconsin Governor Scott Walker. The effect of her policy was to foreclose on the economic mobility into the middle class that ironically she believed her policies were promoting.

(...)

But finance always has lived in the short run, and nowhere in the world is banking more short-term than in Britain. Nobody better exemplified this narrow-minded perspective than Lady Thatcher. Her simplistic rhetoric helped inspire an inordinate share of simpletons conflating supposed common sense with wisdom.

Not altogether simple, perhaps, but simply opportunistic. As the uncredited patron saint of New Labour, Mrs. Thatcher became the intellectual force inspiring her successor and emulator Tony Blair to complete the transformation of British electoral politics to mobilize popular consent to permit the financial sector to privatize and carve up Britain’s public infrastructure into a set of monopolies. In so doing, the United Kingdom’s was transformed from a real economy of production to one that scavenged the world for rents through its offshore banks. In the end, not only was great damage inflicted on England, but on the entire world as capital fled developing countries for safe harbors in London’s banks. Meanwhile, governments throughout the world today are declaring “We’re broke,” as their oligarchs grow ever more rich.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:25

Deduções por falta de acesso à informação fidedigna: o sistema está a reorganizar-se

Sábado, 26.02.11

 

Gostaria de clarificar em primeiro lugar os Viajantes que por aqui passam que me tenho de basear em deduções, uma vez que não tenho acesso a qualquer informação fidedigna. E tem sido mais ou menos assim desde que iniciei esta viagem pela blogosfera. 

De referir - e isto é muito importante, pelo menos para mim -, que se não fosse a internet em geral e a blogosfera em particular, não teria sequer conseguido efectuar estas simples deduções. É certo que poderia tropeçar num ou outro livro, mas o processo teria sido mais lento.

É que a simples observação do que se passa a nível político, económico, social e cultural, não nos teria fornecido toda a matéria de análise. É necessária a troca de ideias, experiências diversas, percursos diferentes. E não é na informação oficial que vamos encontrar qualquer informação sobre a realidade, aí apenas encontramos a ficção muito bem preparada para o consumo de massas.

 

Esclarecido este ponto, hoje voltamos ao centro da questão essencial: o sistema. A organização política, económica, social e cultural, que domina a situação, e há mais de 200 anos. Um dia destes irei ensaiar uma dedução histórico-cultural à procura da origem do actual sistema dominante. Mas hoje o que me interessa essencialmente é propor uma perspectiva, talvez ousada, mas ainda assim baseada em deduções lógicas e plausíveis: o sistema está a reorganizar-se.

Reorganizar-se: "mudar para ficar tudo na mesma", já conhecem a expressão, não é? Reorganizar-se: juntar as hostes, de todos os quadrantes do sistema, unir esforços e criatividades, para criar novas fórmulas a apresentar ao cidadão comum, aquele que o sustenta, para o convencer a continuar a sustentá-lo. Reorganizar-se: manter-se no poder a todo o custo, manter os seus privilégios de elite privilegiada, elite que se auto-nomeou e assim manteve no patamar certo, que se catapultou há muito tempo e não quer perder as mordomias.

 

É certo que o sistema já controlou as áreas-chave do poder político, económico, social e cultural. Senão vejamos: 

- Justiça: já está;

- Ministério Público: já está;

- Serviços Secretos: já está;

- Informação (jornais, televisões): acabou recentemente de neutralizar todos os canais, da RTP à TVI;

- Educação: actualmente a formatação das novas gerações está garantida;

- Banco de Portugal, Autoridade da Concorrência, etc. etc. : está, está, está.

 

Então o que é que falta? Pois aí é que está. Baseando-se desde 74 numa suposta democracia, depende do voto dos eleitores nos partidos sentados numa Assembleia da República. Olha que chatice! Ainda não há uma forma de evitar esta participação do cidadão comum no equilíbrio e estabilidade da sua vidinha confortável. 

Como é que o sistema vai dar a volta a isto? Fácil. Vai apresentar ao eleitor fórmulas aparentemente renovadas e fresquinhas (isto é, inocentes e puras), assim tipo um PSD próximo do cidadão e distanciado do PS, ou mesmo tornar-se um pouco mais audaz e lançar-se numa proposta de alteração da Constituição Portuguesa para introduzir a fórmula "semi-presidencialismo", porque não?, ou ainda mesmo mais audaz, se os tempos o apontarem, mudar de regime e voltar a uma "Monarquia Constitucional", a garantia de mais estabilidade (só espero que a Família Real tenha o discernimento de não alinhar no sistema. É que o falhanço da Monarquia Constitucional deveu-se afinal ao sistema. Mas isso fica para analisar de uma próxima vez).

 

Estamos ainda no plano das deduções, certo? Bem, vemos o sistema a reorganizar-se por se sentir ameaçado. Porquê? Porque já se tornou visível, e o pior que pode acontecer a um sistema ilegítimo é ficar visível. Hoje já é evidente para o cidadão comum que, enquanto sofre as dificuldades todas de uma "so called" crise internacional, há uma elite política, económica, social e cultural que vive confortavelmente à sua custa, de forma ilegítima. E que a "so called" democracia que lhe prometeram se revelou uma farsa. Sim, o cidadão comum sente-se enganado, ludibriado. É só ouvir as Antenas Abertas.  

Se o cidadão comum tem razão para agora se vir lamentar? Em parte sim, em parte não. Sim, porque foi de facto enganado e ludibriado. Não, porque quis ser ludibriado e enganado. Quis acreditar na ficção, mesmo que matematicamente impossível. Única atenuante: a informação oficial alimentou a ficção nos jornais e nas televisões.

 

Veremos, pois, nos próximos tempos, o PSD a apresentar-se ao eleitor, limpinho de responsabilidades políticas nos PECs e nos OEs mais recentes. Com um líder relativamente jovem e apresentável, tipo Ken engravatado, discurso vazio, generalista e pouco elaborado, mas o que importa é a imagem e a voz bem projectada, afinal foi a solução de marketing do PS quando lançaram o actual PM.  

Este PSD será a grande aposta do sistema por agora. As sondagens já o anunciam. O Presidente (do sistema) também está prestes a ser renomeado oficialmente. Está tudo preparado para que nada corra mal. Garantir o sistema no poder, a todo o custo. 

E o que pode correr mal? O cidadão comum não se deixar embalar pelas propostas do sistema. O cidadão comum acordar para a sua realidade e não querer continuar a sustentar esta organização parasita e ilegítima. Já há sinais concretos de que esse despertar para a realidade já se iniciou. 

Até ver, só o CDS percebeu esses sinais, mas o CDS não tem dificuldades de comunicação com o cidadão comum, desde sempre interpretou as suas necessidades e prioridades.

 

E aqui está uma interessante análise possível: Como distinguir hoje quem fala pelo sistema e quem fala pelo cidadão comum, pelo país real?

Só uma sugestão de um teste que penso será fiável: Quem segue os valores cristãos na sua vida, de forma coerente e consistente, não pode servir e/ou aderir a um sistema ilegítimo e injusto.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:16

Coisas simples: a ironia divina

Domingo, 18.04.10

 

A Europa esqueceu a Islândia mas a natureza tratou de lha lembrar...

 

O abraço fatal do PS já envolveu sociólogos livres e independentes como António Barreto...

 

O Presidente diz que não é grego mas está a ver-se grego para regressar a Portugal...

 

E, finalmente, uma line perfeita para os tempos políticos actuais. A line é do Felix, personagem do filme Encostada às cordas, com a Meg Ryan: raw is workable, rotten isn't...

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:34

"E ninguém se revolta com isto?" (Bagão Félix, sobre o PEC)

Quinta-feira, 18.03.10

 

Ontem ainda consegui assistir aos resumos do debate na AR sobre o PEC, a constituição de uma comissão de inquérito e as trocas acesas entre Marques Guedes e José Lello. E consegui ainda perceber, numa notícia de um dos telejornais, que surgiram problemas nas negociações dos sindicatos dos professores com a ministra da Educação. E ainda ouvi Carvalho da Silva sobre o PEC. Que o povo se iria mobilizar. Mas desta vez não me soou a PREC, apenas me lembrei do que Medina Carreira anda a dizer há 2 ou 3 anos: as pessoas vão-se revoltar perante estas enormes diferenças sociais.

 

Em relação ao debate na AR: sobre o PEC, esse estado novo reeditado, irei falar a seguir, sobre a comissão de inquérito apenas dizer que é uma das funções de um parlamento numa democracia. E sobre a divergência entre os dois deputados: o PS, à falta de argumentos, quer colar o PSD à falta de liberdade de expressão interna. É risível. O PSD é o partido que mais pratica a liberdade de expressão. A norma estatutária que tem dado tanto alarido dirige-se apenas aos ilustres que se põem a criticar as orientações do próprio partido nas televisões, em vez de o fazer dentro do partido, como aliás deve ser.

Assim, José Lello teve de se confrontar com a sua contradição, pois referiu, num debate televisivo, que Manuel Alegre tinha falta de carácter. E porquê? Porque se distanciou uma ou duas vezes da orientação oficial do PS. Resultado: José Lello ficou vermelho e teve de engolir a verdade sobre a magnífica liberdade de expressão dentro do PS. 

Mas mesmo na discussão sobre o PEC e sobre a constituição da comissão de inquérito, a argumentação do PS baseou-se no seguinte: trata-se de uma perseguição ao PM e o PSD sofre de asfixia democrática. É esta a argumentação do PS, nada mais.

 

Depois destes resumos, passei à Sic Notícias e ainda vi e ouvi o final da entrevista de Mário Crespo a Bagão Félix. O que lamentei não ter conseguido apanhar toda a entrevista...

Foi reconfortante ouvi-lo, porque fora Medina Carreira e uma ou outra voz mais lúcida, ninguém fala assim no país.

Consegui registar esta frase sobre o PEC, aí vai:

Este PEC é muito presente nos impostos, vago na despesa, omisso na poupança e ausente na economia.

Isto diz tudo. Mas há mais:

O PEC é contra a família. Bagão Félix explica que o PEC trata de forma igual famílias com muitos filhos e as restantes famílias.

Em relação aos reformados: Então os desgraçados com as pensões mais baixas, de 187 euros, vão ver as suas pensões congeladas até 2013?

O país precisa de um reforço de decência. Há muita falta de decência no nosso país.

É um Bagão Félix perplexo e emocionado que pergunta quase no final: 

E ninguém se revolta com isto?

Onde está a Igreja? Está anestesiada? No meu tempo de ministro e no tempo de Guterres, ainda saíam umas Notas Pastorais...

 

Com estas frases registadas nos neurónios, passei para as únicas séries televisivas que acompanho, Life on Mars e Lie to me, que preenchem actualmente o meu serão das 4ªs feiras.

No final, ainda consegui ouvir um Manuel Villaverde Cabral muito inflamado nos segundos finais do programa Roda Livre da TVI 24: Não é certo que quem romper com esta paz podre vá ser penalizado... penso que se referiu ao Presidente, porque falou em reeleição.

Porque é que será que juntaram todos os programas interessantes nas 4ªs feiras à noite? A ver se consigo ver a repetição do Roda Livre na TVI 24 às 13 e pouco. E a ver se voltam a passar na SIC excertos da entrevista a Bagão Félix.

 

Sim, este é o estado novo reeditado. Bem pior do que na primavera marcelista em que a Igreja tinha uma voz pelos mais desprotegidos da comunidade. E as elites culturais tinham um papel muito significativo. Nunca aliás houve tanta energia vital, tanta criatividade, tanto entusiasmo, tanta esperança... Talvez não seja por acaso que os jovens estão a recuperar Ary dos Santos.

Quanto ao poeta da Trova do Vento Que Passa... que me levou a votar em 2006, numa recaída patética na nostalgia de um tempo que passou para sempre (os trovadores de Coimbra dos anos 70), já não convence ninguém. Essa Trova é como o PS e o socialismo: um equívoco.

 

 

 

Dois dias depois: Quanto à Igreja, seria injusto não referir aqui as vozes dessa igreja viva, essa luz acesa, de D. Manuel Martins, D. Januário Torgal Ferreira e D. Carlos Azevedo. Haverá outras vozes certamente, mas estas foram as que eu ouvi.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:48








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